Encontrei Ricardo outro dia no metrô. Em meio a um sujeito de 2 metros de altura em que meu queixo parecia se entrosar com seu umbigo e outro com um casaco que mais parecia uma família de gambás em dia de festa, lá estava ele de costas para mim. Na hora reconheci aquele cabelo mal cortado (sim, ele próprio cortava o cabelo para poupar dinheiro) e como Murphy é meu amigo de infância (acho que já nos conhecemos dividindo o berçário), o senhor dos gambás fez o favor de me jogar para escanteio e nas costas de Ricardo.
Na hora do encontrão me veio a lembrança do namoro de um ano. No turbilhão de sensações daquele instante só me vieram lembranças cômicas ou vagas. Nada de mais, nada de muito bom, apenas algo que passou e não deixou grandes rastros, só poeiras. Essas eu tratei de sacudir. Dei-lhe um oi sem vontade (deveria tê-la?) enquanto ele sorriu de orelha a orelha pelo reencontro. Pelo visto tivemos reações nítidas de objetivos distintos. Eu, querendo me sair da situação e ele, contente pela novidade.
Mais careca, com olheiras, sacolas de fralda na mão e uma sujeira que espero que seja de guaca mole no casaco ele quis iniciar uma conversa, mas os solavancos e a proximidade de sua parada impediram. No momento senti uma dose de pena, mas essa logo virou alívio. Pelo futuro que teríamos, sem graça, sem tempero, caído na rotina dos dias comuns (sim, assim ele era, assim ele continuou com seu mesmo olhar vago, palavras prontas e falta de tato).
No instante em que se distanciava percebi: É, minha morte não será por arrependimento.